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Crise atinge ferro-gusa de Marabá
Diário do Pará 30.10.2008

Das onze indústrias produtoras de ferro-gusa que operam em território paraense, duas já estão completamente paradas. A Sidenorte e a Usimar, ambas localizadas no distrito industrial de Marabá, deram férias coletivas a seus empregados - em número de 600, aproximadamente - e interromperam suas atividades. Se voltarem a fechar algum negocio, nestes próximos dias. Menos mal. Caso contrário, os trabalhadores serão demitidos ao final das férias.

Basta esse fato para mostrar que a indústria de ferro-gusa foi a primeira a sentir com maior intensidade, no Pará, os efeitos da crise internacional que vem enlouquecendo as bolsas e causando o maior tormento da história na economia mundial. No vendaval da crise que assola o parque guseiro estão em jogo, no Estado do Pará, cerca de 9 mil empregos diretos e um faturamento anual da ordem de US$ 580 milhões.

O diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Ferro-Gusa do Estado do Pará (Sindiferpa), Mauro Imbiriba Corrêa, disse ontem que a crise está afetando a economia nacional como um todo e o setor guseiro não poderia ser exceção. Até porque o setor de ferro-gusa exporta praticamente 100% da sua produção.

A única exceção é a Sinobrás, em Marabá. A indústria opera uma pequena unidade produtora de gusa e uma aciaria integrada, onde são fabricados tarugos, chapas, arames e vergalhões de aço. A Sinobrás foi a primeira aciaria a entrar em operação nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

O Pará, com suas onze indústrias - sendo dez instaladas em Marabá e uma em Barcarena - produziu no ano passado 1,8 milhão de toneladas de ferro-gusa, o que corresponde a cerca de 25% da produção nacional. O maior produtor, com aproximadamente 60%, continua sendo Minas Gerais.

Preço internacional cai

A informação de que dispõe o empresariado local, de acordo com o diretor executivo do Sindiferpa, é que o mercado americano já reduziu sua produção de aço em cerca de 40% e, como as siderúrgicas americanas mantêm grandes estoques de ferro gusa, simplesmente deixaram de fechar novos contratos de compra. Pior para a indústria paraense, que tem até hoje nos Estados Unidos o seu principal e quase único cliente.

Apenas uma única guseira do Pará vende para a Europa. As outras dez, que abastecem o mercado americano, não têm como evitar os efeitos adversos da crise, que começou exatamente nos Estados Unidos e que de lá se espalhou para o resto do planeta, alcançando também o Brasil.

Destacou Mauro Imbiriba Corrêa, que, desde a deflagração da crise, o preço do ferro-gusa já caiu de US$ 650 a tonelada para algo em torno de US$ 380 a US$ 350 a tonelada. E a tendência, segundo ele, é de baixa, já que os contratos continuam sendo renegociados para redução de preços. Como o custo dos insumos permanece alto, ele observa que, pelo preço atual, é extremamente complicado manter a produção. /'Nossas indústrias estão praticamente pagando para produzir", assinalou.

Procurando manter uma postura otimista. Mauro Imbiriba Corrêa observa que, embora permaneçam altos, os estoques das indústrias de aço em dado momento vão se esgotar e elas terão que retomar as compras. "A nossa expectativa é de que a crise não dure muito tempo e que o mercado volte à normalidade o quanto antes", finalizou.

Um “estouro” chinês?

Ex-diretor de assuntos internacionais e atual vice-presidente de comércio da Associação Comercial do Pará, o empresário Clóvis Carneiro considera que a crise financeira levou o Brasil a uma encruzilhada. Embora a crise tenha se originado nos Estados Unidos e lá mantenha o seu epicentro, Clóvis Carneiro chama a atenção para o que acontece na China, país que, na sua avaliação, será o primeiro 'a "estourar".

O diretor da ACP chama a atenção para o fato de que o sistema financeiro chinês, mantido pelo governo sob controle estatal, tem cerca de US$ 2 trilhões em títulos de bancos americanos. Esses são números estimados, já que os bancos chineses não têm transparência refletida em balanços, como têm, por exemplo, os bancos americanos e brasileiros.

A China, conforme frisou, é hoje o maior comprador de "commodities" minerais do Brasil, constituindo-se no principal cliente da Vale, e é um dos maiores parceiros comerciais dos EUA. Num eventual e previsível aprofundamento da crise, é natural, segundo ele, que o baque venha a ser duramente sentido também no Brasil. Outro setor da economia paraense que, em tese, estaria extremamente vulnerável ao desaquecimento da economia mundial, segundo Clóvis Carneiro, é o madeireiro, tradicionalmente um dos que têm maior peso relativo na pauta de exportações do Estado. Neste caso, porém, ele acredita que o impacto será bem menor, isso porque o setor madeireiro, de certa forma, já se submeteu a um ajuste, que somente agora se impõe a outros setores da economia. (F.S.)

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